AMAR É VERBO

Nada mais me inspira a escrever do que uma boa leitura. Enquanto leio, consigo gargalhar sozinho e já algumas páginas à frente cair num intenso choro silencioso. Certas leituras desarmam minha racionalidade, afloram minha emoção e me permitem refletir e escrever com o que mais gosto: meu humano coração – cheio de certezas e dúvidas, alegrias e tristezas, sonhos e frustrações, amores e paixões.

Ao ler a bíblia pela primeira vez. Não tinha muitas referências sobre os autores e o tema principal. Li as memórias dos profetas sobre "Deus" sem ter nenhuma representação formada sobre quem ele poderia ser. Foi melhor assim. Os autores o revelam como gente, e não como mito, expondo todas as contradições e faces de uma pessoa, que poderia ser muito bem meu pai, avô ou irmão – ou poderia ser você. Afinal, somos todos muito parecidos.
A bíblia fala de muitas coisas e fala também de amor. Amor é o centro da fé cristã. O Amor vem de Deus, nos leva para Deus e nos leva para o outro.
Não acredito no amor de palavras. Ninguém dá amor - o amor não é substantivo. Podemos dar coisas como carinho, atenção, respeito e tesão. Por essa razão, digo que amor é verbo – condicionado, assim, À AÇÃO DE AMAR. Amor "o" palavrinha complexa.

Se estivéssemos na aula de português e a professora nos pedisse uma análise sintática do verbo amar analisando-o somente gramaticalmente, veríamos que se trata de um verbo transitivo direto. Quem ama, ama alguém ou alguma coisa. É, portanto, verbo que exige um objeto, um motivo, uma causa que lhe dê razão e lhe dê sentido de existência. Não existe sem este complemento, pois, do contrário, seria inútil. Não somente na frase ou no discurso o verbo amar carece desse algo mais que o justifica. Também nas nossas vidas e no nosso coração esta verdade é plena de significado, ao conjugá-lo sem essa razão que lhe dá alicerce, o nosso aprendizado afetivo não existiria. Na frase de nossa vida, ou melhor, na oração de nossa vida. Precisamos do sujeito ( nós) do verbo ( Deus) e do objeto ( o outro). Nossa vida só tem sentido se deixamos o verbo nos dá ação. E esta ação tem seu fim no objeto, o outro.
“Não tem maior amor do que aquele que dá a vida pelo seu amigo”.(João 15:13)

Eu não era merecedor deste amor... O verbo me amou e hoje para completar o sentido de minha vida preciso amar.

E na vida, quando encontramos as pessoas que amam de verdade não é difícil percebê-las, embora, muitas vezes, não reconheçamos isso. Ou só “cai a ficha” quando já é tarde demais!
Outro dia, eu e minha esposa, fomos a um evento filantrópico, onde o jantar custava R$ 20,00, com comida à vontade. O lugar era muito simples, e os pratos, com tempero caseiro, eram uma delícia. Disse isso à responsável pelo jantar, que estava na saída, e ela de pronto me respondeu com a maior simplicidade do mundo: – é porque é feito com amor, meu filho!
Penso agora nas pessoas que conheci para identificar aquelas que amam na rotina do seu dia-a-dia.
Quanto a nós, sabemos amar? Ou melhor, sabemos o real significado de amar? Você, alguma vez, já teve a curiosidade de olhar o significado da palavra amor no dicionário? Se nunca procurou, vou poupar seu trabalho. O primeiro significado mostrado é o que talvez tenha a melhor definição:
” Sentimento que predispõe alguém a desejar o bem de outra pessoa ou de alguma coisa.”
Então é fácil: Amar é desejar o bem do outro. Mas, talvez, não seja tão simples assim. Já reparou que, quando amamos alguém, nossas necessidades costumam estar antes das do outro? Queremos o outro sempre perto, queremos atenção total, queremos ser ouvidos, etc, etc. Queremos, queremos, queremos… Onde está o querer do outro e o Bem estar do outro?
Isso acontece quando estamos mais preocupados com o receber, em vez de buscar compreender as reais necessidades do outro, sem prestarmos atenção no que de bom podemos compartilhar, e resolvemos só entregar tudo que for possível. É ai que nos esquecemos de fazer do amar um verbo.
Amar é realizar ações concretas que demonstrem o bem querer com o outro. Desejar o bem do outro é amar incondicionalmente, é não sermos egoístas querendo tudo a nossa maneira. Verbos indicam ação. Trazer o amor para a ação é parar de idealizar a perfeição, é não cobrar atitude, mas agir em busca do melhor.

Quem diz que ama, mas quer tudo do seu jeito sem querer compartilhar, não ama outrem, ama a si próprio e por isso, sofre. Sofre porque passa o tempo todo se sentindo rejeitado ou como se faltasse algo, como se estivesse vazio. Deixar de lado as inseguranças e as duvidas, saber que só o amor constrói e que a liberdade faz parte do amor é começar a percorrer o caminho para o amor verdadeiro.

É preciso amar concretamente. Não é tarefa fácil. O amor que vem de Deus é aquele que faz com que nos aproximemos do outro para atender as suas necessidades e não as nossas. Nisso entra a continuação do evangelho de Lucas que mostra a parábola do bom samaritano.
Amar de verdade é reconhecer aqueles que entram em nossos caminhos precisando de atenção.

Por Leonardo Pessoa


IRRITAÇÕES

Agarrado no sedimento arenoso, onde o rio desembocava no oceano, a ostra, abriu gentilmente a sua concha, a fim de sugar água do mar, exatamente como vinha fazendo durante toda a sua vida. Dessa vez, entretanto, a água que corria pelo seu sistema de filtragem deixou um incômodo grão de areia em seu corpo. Ele não o conseguia deslocar. Nada que ele fizesse seria capaz de eliminar aquela partícula de sílica posta em seu corpo. Apesar de o grão de areia não lhe ameaçar a vida, era deveras irritante. O dia do molusco ficou absolutamente arruinado.

Dois dias depois, ficou óbvio que aquele grão de areia tinha se alojado ali, para ficar. Ficara encravado entre a carne mole da ostra e sua concha. O menor movimento da ostra era suficiente para acentuar a irritação: mais ou menos como uma pedrinha, dentro do sapato, cria uma dor crescente, à medida que se anda.
Todavia, ostras e seres humanos enfrentam irritações, reagindo de maneira bastante diferente. Podemos tirar o sapato e retirar a pedrinha; a ostra não pode desfazer-se de sua concha, a fim de extrair o grão de areia. Por isso mesmo, Deus proveu a ostra de uma secreção especial cujo nome é nácar. Mais ou menos, como uma aranha, pode expelir material, para armar a sua teia, a ostra pode secretar o nácar, em redor do fator de irritação, a fim de abrandar ao incômodo.
Dotado de um instinto, dado pelo Criador, a ostra formou um cisto protetor, em redor da substância estranha, e foi revertendo sistematicamente o grão de areia, com sua secreção. Isso embotou as arestas cortantes do grão. Mesmo assim, o fragmento de sílica continuava exercendo pressão contra a carne da ostra. Ela então, liberou maior quantidade de secreção, envolvendo o grão de areia com uma segunda camada de nácar. Os meses arrastavam-se e se tornaram anos, mas a irritação não se ia. Embora agora o nácar tivesse formado uma proteção arredondada e lisa, e não lhe cortasse mais a carne formara-se uma excrescência interna, de tal volume, que o molusco sentia como se alguém estivesse pressionando um dedo em seu lado.
A ostra sentia-se derrotada. Apesar de todo o seu duro trabalho, o fator de irritação havia aumentado de volume.
Ela estava certa de que aquela imensa excrescência o havia tornado um fenômeno anormal. “Ninguém, jamais, haverá de me querer”, lamuriava-se. Quando o apanhador de ostras lançou a sua caçapa e a retirou de sua incrustação, no sedimento do fundo do mar, não ofereceu resistência. O senso de depressão havia substituído o deleite da vida. E ela costumava pensar: “Haveria algo pior do que esses últimos sete anos de sofrimento”
Na manhã seguinte, o preparador das ostras cortou o músculo, que mantinha juntas as duas metades da concha, e deixou a ostra escorregar para dentro de uma tigela. A cozinha explodiu com um grito de excitação: “Vejam só o que eu encontrei! É a maior pérola que já vi. Vale uma fortuna!” A maneira como aquela ostra havia trabalhado a causa de sua dor tornara-se fonte de prazer e alegria para outrem.
A pérola é a única gema formada por um organismo vivo, razão pela qual também é a mais frágil de todas as gemas. Apesar de todas as gemas terem muito valor comercial, uma pérola grande e perfeita, que se desenvolveu no interior de uma ostra, sem qualquer manipulação humana, pode chegar a preço mais elevado do que um diamante perfeitamente lapidado.
Nem todas as ostras produzem pérolas: menos de dez por cento delas são produtivas. Usualmente, conseguem livrar-se dos grãos de areia que se alojam em seus sistemas. E, mesmo quando não conseguem desvencilhar-se de algum fator de irritação, algumas ajustam-se à dor. Por semelhante modo, nem todos suportam bem as aflições e os problemas; mas aqueles que conseguem resistir à severidade dos testes têm uma rica oportunidade de produzir, uma pérola.
Há uma série de materiais aos quais o homem dá um valor especial, como é o caso do ouro, da prata, dos diamantes, dos rubis e de outras pedras preciosas.Todos eles têm origem em estruturas metálicas ou cristalinas, inorgânicas, como é o caso dos diamantes, produzido a partir de uma exposição do carbono a milhares de anos de pressão e calor.
Já a pérola, possui natureza orgânica, uma vez que é produzida dentro das ostras. Não é sem razão que ela foi tomada muitas vezes como elemento simbólico das coisas espirituais, tanto por Jesus Cristo como pelas mensagens proféticas.
“O reino dos céus é semelhante ao homem negociante, que busca boas pérolas; E, encontrando uma pérola de grande valor, foi, vendeu tudo quanto tinha, e comprou-a.” Mateus 13: 45-46
Os sofrimentos podem produzir mágoas e tristezas ou pérolas de extraordinário valor. Você já se sentiu ferido pelas palavras rudes de alguém? Já foi acusado de ter dito coisas que não disse? Suas idéias já foram rejeitadas ou mal interpretadas? Já sentiu duros golpes de preconceito? Já recebeu o troco da indiferença?
Então, produziu uma pérola, um tesouro que se criou dentro de você.
Cubra suas mágoas com várias camadas de amor. São poucas as pessoas que se interessam por esse tipo de sentimento. A maioria aprende apenas a cultivar ressentimentos, deixando as feridas abertas, alimentando-as com sentimentos pequenos, não permitindo que cicatrizem. Assim, na prática, o que vemos são muitas ‘ostras vazias’, não porque não tenham sido irritadas ou feridas, mas porque não souberam perdoar, compreender e transformar a dor em amor.
Por Leonardo Pessoa