O Pastor herege - Revista Carta Capital

O pastor herege“Deus nos livre de um Brasil evangélico”, diz o religioso Ricardo Gondim, crítico dos movimentos neopentecostais. Por Gerson Freitas Jr. Foto: Olga Vlahou 

“Deus nos livre de um Brasil evangélico.” Quem afirma é um pastor, o cearense Ricardo Gondim. Segundo ele, o movimento neopentecostal se expande com um projeto de poder e imposição de valores, mas em seu crescimento estão as raízes da própria decadência. Os evangélicos, diz Gondim, absorvem cada vez mais elementos do perfil religioso típico dos brasileiros, embora tendam a recrudescer em questões como o aborto e os direitos homossexuais. Aos 57 anos, pastor há 34, Gondim é líder da Igreja Betesda e mestre em teologia pela Universidade Metodista. E tornou-se um dos mais populares críticos do mainstream evangélico, o que o transformou em alvo. “Sou o herege da vez”,  diz na entrevista a seguir.


CartaCapital: Os evangélicos tiveram papel importante nas últimas eleições. O Brasil está se tornando um país mais influenciável pelo discurso desse movimento?
 Ricardo Gondim: Sim, mesmo porque, é notório o crescimento do número de evangélicos. Mas é importante fazer uma ponderação qualitativa. Quanto mais cresce, mais o movimento evangélico também se deixa influenciar. O rigor doutrinário e os valores típicos dos pequenos grupos se dispersam, e os evangélicos ficam mais próximos do perfil religioso típico do brasileiro.
CC: Como o senhor define esse perfil?
RG: Extremamente eclético e ecumênico. Pela primeira vez, temos evangélicos que pertencem também a comunidades católicas ou espíritas. Já se fala em um “evangelicalismo popular”, nos moldes do catolicismo popular, e em evangélicos não praticantes, o que não existia até pouco tempo atrás. O movimento cresce, mas perde força. E por isso tem de eleger alguns temas que lhe assegurem uma identidade. Nos Estados Unidos, a igreja se apega a três assuntos: aborto, homossexualidade e a influência islâmica no mundo. No Brasil, não é diferente. Existe um conservadorismo extremo nessas áreas, mas um relaxamento em outras. Há aberrações éticas enormes.

CC: O senhor escreveu um artigo intitulado “Deus nos Livre de um Brasil Evangélico”. Por que um pastor evangélico afirma isso?
RG: Porque esse projeto impõe não só a espiritualidade, mas toda a cultura, estética e cosmovisão do mundo evangélico, o que não é de nenhum modo desejável. Seria a talebanização do Brasil. Precisamos da diversidade cultural e religiosa. O movimento evangélico se expande com a proposta de ser a maioria, para poder cada vez mais definir o rumo das eleições e, quem sabe, escolher o presidente da República. Isso fica muito claro no projeto da Igreja Universal. O objetivo de ter o pastor no Congresso, nas instâncias de poder, é o de facilitar a expansão da igreja. E, nesse sentido, o movimento é maquiavélico. Se é para salvar o Brasil da perdição, os fins justificam os meios.

CC: O movimento americano é a grande inspiração para os evangélicos no Brasil?
RG: O movimento brasileiro é filho direto do fundamentalismo norte-americano. Os Estados Unidos exportam seu american way oflife de várias maneiras, e a igreja evangélica é uma das principais. As lideranças daqui leem basicamente os autores norte-americanos e neles buscam toda a sua espiritualidade, teologia e normatização comportamental. A igreja americana é pragmática, gerencial, o que é muito próprio daquela cultura. Funciona como uma agência prestadora de serviços religiosos, de cura, libertação, prosperidade financeira. Em um país como o Brasil, onde quase todos nascem católicos, a igreja evangélica precisa ser extremamente ágil, pragmática e oferecer resultados para se impor. É uma lógica individualista e antiética. Um ensino muito comum nas igrejas é a de que Deus abre portas de emprego para os fiéis. Eu ensino minha comunidade a se desvincular dessa linguagem. Nós nos revoltamos quando ouvimos que algum político abriu uma porta para o apadrinhado. Por que seria diferente com Deus?

CC: O senhor afirma que a igreja evangélica brasileira está em decadência, mas o movimento continua a crescer.
RG: Uma igreja que, para se sustentar, precisa de campanhas cada vez mais mirabolantes, um discurso cada vez mais histriônico e promessas cada vez mais absurdas está em decadência. Se para ter a sua adesão eu preciso apelar a valores cada vez mais primitivos e sensoriais e produzir o medo do mundo mágico, transcendental, então a minha mensagem está fragilizada.

CC: Pode-se dizer o mesmo do movimento norte-americano?
RG: Muitos dizem que sim, apesar dos números. Há um entusiasmo crescente dos mesmos, mas uma rejeição cada vez maior dos que estão de fora. Hoje, nos Estados Unidos, uma pessoa que não tenha sido criada no meio e que tenha um mínimo de senso crítico nunca vai se aproximar dessa igreja, associada ao Bush, à intolerância em todos os sentidos, ao Tea Party, à guerra.

CC: O senhor é a favor da união civil entre homossexuais?
RG: Sou a favor. O Brasil é um país laico. Minhas convicções de fé não podem influenciar, tampouco atropelar o direito de outros. Temos de respeitar as necessidades e aspirações que surgem a partir de outra realidade social. A comunidade gay aspira por relacionamentos juridicamente estáveis. A nação tem de considerar essa demanda. E a igreja deve entender que nem todas as relações homossensuais são promíscuas. Tenho minhas posições contra a promiscuidade, que considero ruim para as relações humanas, mas isso não tem uma relação estreita com a homossexualidade ou heterossexualidade.

CC: O senhor enfrenta muita oposição de seus pares?
RG:  Muita! Fui eleito o herege da vez. Entre outras coisas, porque advogo a tese de que a teologia de um Deus títere, controlador da história, não cabe mais. Pode ter cabido na era medieval, mas não hoje. O Deus em que creio não controla, mas ama. É incompatível a existência de um Deus controlador com a liberdade humana. Se Deus é bom e onipotente, e coisas ruins acontecem, então há algo errado com esse pressuposto. Minha resposta é que Deus não está no controle. A favela, o córrego poluído, a tragédia, a guerra, não têm nada a ver com Deus. Concordo muito com Simone Weil, uma judia convertida ao catolicismo durante a Segunda Guerra Mundial, quando diz que o mundo só é possível pela ausência de Deus. Vivemos como se Deus não existisse, porque só assim nos tornamos cidadãos responsáveis, nos humanizamos, lutamos pela vida, pelo bem. A visão de Deus como um pai todo-poderoso, que vai me proteger, poupar, socorrer e abrir portas é infantilizadora da vida.

CC: Mas os movimentos cristãos foram sempre na direção oposta.
RG: Não necessariamente. Para alguns autores, a decadência do protestantismo na Europa não é, verdadeiramente, uma decadência, mas o cumprimento de seus objetivos: igrejas vazias e cidadãos cada vez mais cidadãos, mais preocupados com a questão dos direitos humanos, do bom trato da vida e do meio ambiente.

Cordel: Big Brother Brasil, Um programa imbecil




Curtir o Pedro Bial
E sentir tanta alegria
É sinal de que você
O mau-gosto aprecia
Dá valor ao que é banal
É preguiçoso mental
E adora baixaria.
Há muito tempo não vejo
Um programa tão ‘fuleiro’
Produzido pela Globo
Visando Ibope e dinheiro
Que além de alienar
Vai por certo atrofiar
A mente do brasileiro.
Me refiro ao brasileiro
Que está em formação
E precisa evoluir
Através da Educação
Mas se torna um refém
Iletrado, ‘zé-ninguém’
Um escravo da ilusão.
Em frente à televisão
Lá está toda a família
Longe da realidade
Onde a bobagem fervilha
Não sabendo essa gente
Desprovida e inocente
Desta enorme ‘armadilha’.
Cuidado, Pedro Bial
Chega de esculhambação
Respeite o trabalhador
Dessa sofrida Nação
Deixe de chamar de heróis
Essas girls e esses boys
Que têm cara de bundão.
O seu pai e a sua mãe,
Querido Pedro Bial,
São verdadeiros heróis
E merecem nosso aval
Pois tiveram que lutar
Pra manter e te educar
Com esforço especial.
Muitos já se sentem mal
Com seu discurso vazio.
Pessoas inteligentes
Se enchem de calafrio
Porque quando você fala
A sua palavra é bala
A ferir o nosso brio.
Um país como Brasil
Carente de educação
Precisa de gente grande
Para dar boa lição
Mas você na rede Globo
Faz esse papel de bobo
Enganando a Nação.
Respeite, Pedro Bienal
Nosso povo brasileiro
Que acorda de madrugada
E trabalha o dia inteiro
Dar muito duro, anda rouco
Paga impostos, ganha pouco:
Povo HERÓI, povo guerreiro.
Enquanto a sociedade
Neste momento atual
Se preocupa com a crise
Econômica e social
Você precisa entender
Que queremos aprender
Algo sério – não banal.
Esse programa da Globo
Vem nos mostrar sem engano
Que tudo que ali ocorre
Parece um zoológico humano
Onde impera a esperteza
A malandragem, a baixeza:
Um cenário sub-humano.
A moral e a inteligência
Não são mais valorizadas.
Os “heróis” protagonizam
Um mundo de palhaçadas
Sem critério e sem ética
Em que vaidade e estética
São muito mais que louvadas.
Não se vê força poética
Nem projeto educativo.
Um mar de vulgaridade
Já tornou-se imperativo.
O que se vê realmente
É um programa deprimente
Sem nenhum objetivo.
Talvez haja objetivo
“professor”, Pedro Bial
O que vocês tão querendo
É injetar o banal
Deseducando o Brasil
Nesse Big Brother vil
De lavagem cerebral.
Isso é um desserviço
Mal exemplo à juventude
Que precisa de esperança
Educação e atitude
Porém a mediocridade
Unida à banalidade
Faz com que ninguém estude.
É grande o constrangimento
De pessoas confinadas
Num espaço luxuoso
Curtindo todas baladas:
Corpos “belos” na piscina
A gastar adrenalina:
Nesse mar de palhaçadas.
Se a intenção da Globo
É de nos “emburrecer”
Deixando o povo demente
Refém do seu poder:
Pois saiba que a exceção
(Amantes da educação)
Vai contestar a valer.
A você, Pedro Bial
Um mercador da ilusão
Junto a poderosa Globo
Que conduz nossa Nação
Eu lhe peço esse favor:
Reflita no seu labor
E escute seu coração.
E vocês caros irmãos
Que estão nessa cegueira
Não façam mais ligações
Apoiando essa besteira.
Não deem sua grana à Globo
Isso é papel de bobo:
Fujam dessa baboseira.
E quando chegar ao fim
Desse Big Brother vil
Que em nada contribui
Para o povo varonil
Ninguém vai sentir saudade:
Quem lucra é a sociedade
Do nosso querido Brasil.
E saiba, caro leitor
Que nós somos os culpados
Porque sai do nosso bolso
Esses milhões desejados
Que são ligações diárias
Bastante desnecessárias
Pra esses desocupados.
A loja do BBB
Vendendo só porcaria
Enganando muita gente
Que logo se contagia
Com tanta futilidade
Um mar de vulgaridade
Que nunca terá valia.
Chega de vulgaridade
E apelo sexual.
Não somos só futebol,
baixaria e carnaval.
Queremos Educação
E também evolução
No mundo espiritual.
Cadê a cidadania
Dos nossos educadores
Dos alunos, dos políticos
Poetas, trabalhadores?
Seremos sempre enganados
e vamos ficar calados
diante de enganadores?
Barreto termina assim
Alertando ao Bial:
Reveja logo esse equívoco
Reaja à força do mal…
Eleve o seu coração
Tomando uma decisão
Ou então: siga, animal…


Autor: Antonio Barreto, natural de Santa Bárbara-BA, residente em Salvador. Professor, poeta e cordelista.Graduado em Letras Vernáculas e pós graduado em Psicopedagogia e Literatura Brasileira.

Deus é o Grão de poeira

Não sou estudante de religião em nenhum centro de ensino (infelizmente), por essa razão meu conhecimento sobre coisas voltadas a Deus e religião é muito mais intuitivo que literal.

Dentro deste meu conhecimento limitadíssimo fui desafiado por três amigos de explicar a seguinte dúvida; Se Deus existe porque ninguém nunca o viu? E se não o vemos como nos relacionamos com ele?

Cada um desses amigos tem uma particularidade. Um é católico, outro de família protestante, e o mais novo livre pensador. Procurei em volta algo que pudesse usar como instrumento de reflexão para esta reposta dentro do MEU ENTENDIMENTO.

O local onde estávamos continha apenas uma televisão, um DVD e uma caixa de filmes. Dentro desta caixa tinha um filme de animação infantil que já havia assistido com meu sobrinho. Horton e o mundo dos Quem!

Utilizei-me propositalmente a história do filme como meu instrumento pedagógico.
O filme conta a história de Horton um elefante que por acaso descobre que há vida num grão de poeira, quando essa pequena partícula passa flutuando perto das suas orelhonas aguçadas. 
Horton imediatamente espalha a notícia de que há um mundo microscópico no pequeno grão e para protegê-lo ele o coloca sobre uma flor. Desacreditado por toda a floresta em que vive, o paquiderme coloca-se à disposição dos habitantes do grão os moradores da cidade de Quem-Lândia.

A epígrafe do filme é "mesmo que você não possa ver ou provar algo não significa que não existe"

Terminado o filme o rapaz de família protestante já quis discorrer em matéria teológica o filme (teologizar). Ele disse: “Os moradores de Quem-Lândia somos nós, o grão de poeira onde vivem é a terra, e o elefante que se coloca à disposição dos habitantes do grão é Deus”.
Essa postura também agradou o meu amigo católico, e acredito que a maioria dos cristãos crêem assim.

Quase todo mundo que eu conheço crê que Deus está sentado em um trono em “seu” universo, sustentando tudo. E nós aqui da terra nos relacionamos com ele. 
Assim como o povo de Quem-lândia se relaciona de dentro do grão de poeira com o elefante Horton confiando em sua bondade para que seu mundo fosse salvo.

Em nossa experiência religiosa Deus é tido como um ser que existe fora do mundo ou como o mais importante ser dentro do mundo.

O povo de Quem-Lândia, mas especificamente o prefeito Ned mediador dos diálogos, acreditava que a salvação do seu mundo acorreria através das mãos, ou melhor, da tromba de Horton. Um ser desconhecido e invisível para os Quem.
Horton também não enxergava o povo Quem, devido ao seu tamanho microscópio, só os ouvia. Semelhantemente o povo de Quem-Lândia não enxergava Horton afinal, o que é um elefante para seres que vivem em um mundo do tamanho de um grão de poeira?

Pra mim, usando o filme como ilustração, Deus não é o elefante Horton com quem o povo de Quem-Lândia se comunica. Horton me parece mais com o deus que o homem criou que ouviu por acaso o clamor do povo, mas que não tem nenhuma conexão com seu mundo e na verdade nem os enxerga. E que também estamos pouco interessados em conhecer desde que ele nos salve. A meu ver Deus é o grão de poeira onde habitam os Quem.

Na minha compreensão, Deus está para o ser humano assim como o grão de poeira está para o povo Quem. O povo de Quem-Lândia não se relaciona com o grão eles vivem dentro do grão. O grão de poeira é o ambiente onde eles encontram vida. O ambiente dentro do qual se expressam e que sustentam sua existência.

Acredito que Deus seja o grão por crer que tudo acontece dentro dele. “Nele vivemos nos movemos e existimos “(Atos 17:28).

Deus não é uma coisa que consigo pegar, nem um objeto que possa enxergar. Os Quem não vêem o grão de poeira, na verdade nem sabiam que sua realidade acontecia dentro um grão de poeira. Para ver o grão seria preciso que um cidadão Quem saísse do grão, mas como tal não sobreviveria fora dele.

Nossa existência acontece dentro de Deus. Por essa razão Deus não pode ser categorizado como um objeto ou alguma coisa com a qual nós nos relacionamos em si. Deus é experimentado por nós na maneira como nós nos relacionamos com todas as coisas.

Nós os evangélicos temos muito dos Quem. Nos relacionamos com nosso salvador acreditando que ele não pertença a nossa realidade. Cremos em uma pseudo voz que vem do além e que pertence a um ser que não sabemos como é. E que tem seu dialogo a maioria das vezes mediado por um representante.

Ninguém nunca viu a Deus por que tudo que existe acontece dentro dele, inclusive nós. Ele é o Eu sou. (Êxodo 3). Nele somos, vivemos e existimos.

"Deus não está , no céu ou onde quer que seja, e nós aqui para que fiquemos olhando para ele. O aqui está dentro de Deus e não existe um aqui e um porque o aqui fica dentro do ". (Ed René Kivitz).


Por Leonardo Pessoa

Carta póstuma ao amigo que se foi

Hoje sonhei com um amigo que perdi semana passada vitima da violência. Na tentativa de exorcizar essa celeuma dentro de mim escrevi essa carta.


São Paulo 19, de janeiro de 2.011


Amigo,

Fazem apenas alguns dias que você se foi, a culpa veio me visitar. Sonhei com você!
A última vez que nos vimos eu estava com muita pressa, e não falei com você direito. Hoje, acompanho tudo isso com um pesar que me paralisa. Por isso escrevo e me desculpo por não ter me deixado disponível, para essa que seria nossa última conversa.

Sinto não saber o que dizer, sinto muito não poder fazer nada a não ser chorar sua morte.
O que dizer, diante de sua uma mãe que chora de seu pai que pelo semblante parece ter perdido o rumo? Ainda não vi seu irmão, nem sua irmã.

Não é certo os pais enterrarem seus filhos, isso é contrário a ordem natural das coisas. Minhas frases prontas que costumam ser confortadoras nessa hora entraram em xeque. Essa; ouvi quando falávamos sobre você; que por mais paradoxal que pareça em um primeiro instante até me conforta, mas não me cura. “Deus sabe o que faz”.

Pensar que sua morte tem a assinatura de Deus em seu romaneio é revoltante demais pra mim.
Não consigo conceber a idéia de que, porque o soberano tem um plano, permiti que todos os dias crianças, jovens, homens, mulheres e velhos percam suas vidas em várias situações da vida, como em um deslizamento de terra ocasionado por uma forte chuva, ou por uma bala que perdeu seu curso original e atingiu um jovem na saída de uma festa, etc.

Pior que isso só se eu começar a cogitar a hipótese, de estando mais do que uma pessoa em qualquer uma das situações citadas, Deus dar o livramento a um e deixar o outro morrer. Como aconteceu contigo meu amigo.

Deus sabe o que faz, mas com certeza ele não tem nada a ver com isso.

Quando despertei do sonho, estava bem triste. No sonho várias pessoas pediam que eu explicasse o porquê Deus permitiu o acontecido. Levantei, ainda era de madrugada, decidi abrir a bíblia e por acaso abri em Jó bem na parte em que Deus está respondendo acerca das suas dúvidas sobre as contingências da vida.

"Quem é esse que obscurece o meu conselho com palavras sem conhecimento? Prepare-se como simples homem; vou fazer-lhe perguntas, e você me responderá”. (Jó 38:03-04). Eu pude contar do capitulo 38 onde Deus começa seu discurso até o final do capitulo 41 que ele fez 72 perguntas a Jó.

Percebi que a tentativa de explicar sua tragédia me põe em pé de igualdade aos amigos de Jó. Procurava uma resposta lógica ou um culpado para o meu sofrimento, mas a resposta transpôs meu entendimento.

Eu ainda não sei responder a maiorias das perguntas feitas por Deus a Jó, mas meu coração agora está em paz, pois vi que também eu só o conhecia de ouvir falar... agora posso vê-lo.

Jó me ensinou que pior que a tragédia é a tentativa de explicá-la e entende-la. O livro mostrou-me  através das perguntas feitas por Deus a Jó o quão ignorante sou acerca do mundo e suas contingências.

Há tempo sei que ninguém tem a vida blindada por Deus. Nem mesmo aqueles que se intitulam; meninas dos seus olhos! A proteção, o livramento não me servem mais como fundamento para que eu creia em Deus.

Não quero mais tentar entender a tragédia que culminou com sua morte, nem saber o seu por que. Não quero argumentar logicamente o sofrimento de ninguém, nem mesmo o meu. 
Quero só ouvir o lamento dos que sofrem por ti e estar ao lado deles e chorar, ainda que sem dizer uma só palavra.

Aprendi com sua vida a celebrar a espontaneidade, a alegria. Sua morte me mostrou que o maior consolo na hora do sofrimento é a presença, qualquer palavra é menor do que estar. Falar qualquer coisa na hora da dor sem estar não vale muito. 
Obrigado, pelo tempo em que esteve conosco!

Creio que Deus está contigo, como sempre esteve. Até um dia.

Abraços fortes
do Liô.

28 anos

Mais um ano de vida, se é possível resumir em uma palavra minhas pretensões para hoje a palavra é reinventar. Palavra complicada para uma pessoa tão cheia de vícios e manias prejudiciais difíceis de serem abandonados como eu.

Reinventar-se pra mim é fazer um auto-retrato e depois ter a coragem de dizer: o jeito que estou vivendo não está bom. Não é tornar-me outra pessoa, mas achar outras características dentro de mim.

Quando percebi que minha espiritualidade não conversava com a minha realidade entrei em crise. Daí a dúvida ou me reinvento para sair da crise ou espero que ela passe. Decidi re-significar minha vida, para isso fui obrigado a também re-significar o que aprendi sobre Deus e suas formas de agir.

Os principais temas que precisei re-significar foram esses: Amor, oração, dúvida, fé, maioria, vontade de Deus e salvação.

Amor
Percebo hoje que amor não é resultado de barganha, posso ser eu mesmo sendo amado do jeito que sou. Se necessitar deixar de ser quem sou para ser amado o que recebo não é amor, o que está sendo amado não é o que sou e sim a imagem do que aparento ser. 

Essa consciência eu tenho hoje não só quando recebo, mais também quando ofereço amor.
Reconheço que Deus não exige nada de mim para me amar, e todo aquele que me exige algo como condição de amor não me ama.

Oração
Orar hoje é reconhecer quem Deus é, desejando orientar minha existência sobre os valores deste Deus. No modelo de oração que Jesus usou não existe pedido de coisas para mim e sim de coisas em mim.

Não oro mais para ter, ou conquistar. Oro para ser, ou tornar-me. Não anseio que minhas orações sejam respondidas, agora quero ser resposta a oração das pessoas.

Dúvida
Durante toda minha vida a dúvida foi meu algoz, hoje a chamo de amiga, parceira de fé. Agora sei que a fé nasce das minhas incertezas. Lembro-me ainda das palavras ditas por Papai, personagem que representa Deus no romance A Cabana de Willian P. Young, “Na casa das certezas não há espaço para a fé”.

Em minha comunidade, ainda sem nome, nos reunidos e debatemos graças à dúvida. Onde existe a certeza não há espaço para o amanhã, para uma nova conversa. A dúvida tem sido o elixir da minha fé.


Geralmente é dito que fé é a certeza, já disse o que penso sobre isso no quesito dúvida. É dito também que fé acreditar em Deus, ou acreditar que Deus pode tudo. Adotei a definição do Rob Bell para o que é fé; “... fé é acreditar que Deus acredita em você.”

Quem me ensinou isso foi o apostolo Pedro quando pediu que Jesus o chamasse para andar sobre as águas. E Jesus o chamou, isto é, pronunciou uma palavra de ordem a seu respeito.
Pedro saiu do barco e caminhou sobre as águas. Mas em dado momento prestou atenção no vento, e duvidou. Começou a afundar e clamou por socorro: “Senhor, salva-me!”

Pedro não duvidou de Jesus e nem de seu poder de salvar. Então, duvidou do quê?
Duvidou de si mesmo. Duvidou de que seria capaz de cumprir a palavra de Jesus pronunciada a seu respeito. Creio hoje que fé é acreditar que Deus acredita em mim.

Maioria
Não quero fazer parte da maioria, não por birra, mas porque estou pensando como o escritor Nelson Rodrigues “Toda unanimidade é burra”. Na bíblia percebo vários exemplos disso; a criação do bezerro de ouro, a decisão de não entrar em Canaã, o apedrejamento de Estevão e de Paulo, a decisão de soltar o preso e crucificar o Cristo, todas essas ações nasceram do voto da maioria.

Serei como os irmãos de Beréia; não seguirei cegamente outra consciência que não seja a minha. Não serei mais guiado pela multidão, o fato de um lugar estar cheio não quer dizer que ele é bom.

Vontade de Deus
Andrés Torres Queiruga resumiu “Deus não faz coisa alguma ao nosso lado para nos completar, ou em nosso lugar, suprimindo-nos, mas faz com que nós façamos, pois sustenta nosso ser e agir. A ação parte da criatura, possibilitada pelo Criador. Assim, quanto mais faz Deus, mais fazem as criaturas, quanto mais as criaturas fazem, mais faz Deus. Onde a criatura falha, Deus também falha, porque desde que nos criou decidiu, livremente, nada fazer sem nosso acolhimento e aceitação”.

Deus age de forma pessoal em todas as situações e circunstâncias da vida de todas as pessoas. Mas não é o culpado de tudo o que acontece. Seja esse tudo o bom ou o ruim. Deus ouve nosso clamor e responde nossas súplicas. Mas não é um ventríloquo e não se relaciona conosco como se fossemos fantoches.

Deus se relaciona conosco respeitando nossas histórias e nossas individualidades.

Salvação
Essa foi a mais difícil reforma em mim. Reconhecer que Deus não está interessado em regatar minha alma. Essa dicotomia entre corpo e alma não é bíblica é filosofia grega. Creio que Deus está interessado em mim como um todo e se importa não só com meu estado de espírito mais com o que eu estou fazendo com o meu corpo, como estou me portando nos meus negócios, na sala de aula etc. Ele quer participar da minha vida em plenitude.

Mudei muito de alguns anos pra cá. Se foi para melhor ainda não sei. Sei que perdi muitas ilusões e utopias, não sou mais religioso. Se isso foi bom não sei, sei é que estou mais feliz.
 
Hoje aos 28 anos entendo o porquê as misericórdias do senhor se renovam na minha vida a cada manhã. (Lm 3:22). A misericórdia de Deus se renova a cada manhã para que eu possa me reinventar todos os dias.

Reinventar-se é se dar uma nova oportunidade, e o mais importante, acreditar em você de novo.

Por Leonardo Pessoa

Jesus Cristo, a grande razão de celebrarmos o natal.



“Glória a Deus nas alturas, e paz na terra entre os homens...” Lc 2:14

Foram essas as palavras daquele coral celestial anunciando o nascimento de Jesus. Essa é a última vez que Deus fala por intermédio de anjos, no dia em que Deus se fez homem. A partir dali não era mais necessária nenhuma mediação angelical entre Deus e os homens, por que através de Jesus Cristo Deus se tornou humano.

Para se relacionar com a humanidade Deus que é onipresente se limitou a um só lugar, se esvaziou até o ponto em que coube num berço, o infante Jesus é o resultado de todo esse esvaziamento de Deus.

No natal Deus se fez tão próximo que recusamos acreditar, que era realmente ele. Esperávamos “um deus” que demonstra-se  poder e glória e recebemos um menino que não fez questão de receber as glórias por sua filiação e revelou-se em uma manjedoura.

Por essa razão o natal nos lembra que Deus pode ser visto e celebrado no outro. É festa de inclusão, onde socializamos não só o pão, mas o amor através da troca de presentes, dos abraços e dos desejos de um novo ano melhor.

Também é época de reconciliação e paz. Jesus é a encarnação da paz, o príncipe da paz. Os religiosos acreditam, erroneamente, que no mundo só haverá paz quando formos iguais a Deus. O natal nos lembra que Deus agora é humano e por isso não existe mais qualquer cobrança.

Deus não se travestiu de gente, ele encarnou, viveu, conviveu, sangrou e morreu. E se existe alguma exigência de Deus é essa; que vivamos plenamente e nos relacionemos uns com os outros.

 John Lennon em um trecho da sua música Merry Christmas (War is Over) diz assim:
“E então é Natal; E o que nós fizemos?”

É natal, e o que fizemos? Vamos viver, nos relacionar, amar e contribuir para que Jesus nasça no coração das pessoas. É natal, e o que faremos? Sejamos o consolo e a felicidade de alguém, transformemo-nos em uma extensão do braço de Deus. Presenteando com um abraço ou um beijo, abençoando os que sofrem, promovendo a justiça e sinalizando a paz.

O natal é a consciência de que existe outro jeito de viver, que existe outra forma de se relacionar, existe outra forma de ver a pessoa que está ao meu lado. Ao menos uma vez no ano entendemos o que Deus realmente quis dizer.

Por Leonardo Pessoa

Deus além dos Sentidos


Ainda que eu andasse pelo vale da sombra da morte, não temeria o mal, porque tu estás comigo; a tua vara e o teu cajado me consolam. Preparas uma mesa perante mim na presença dos meus inimigos, unges a minha cabeça com óleo, o meu cálice transborda. Tenho a certeza que a bondade e a misericórdia me seguirão todos os dias da minha vida; e habitarei na casa do SENHOR por longos dias”. Salmo 23: 4-6 (Bíblia NVI).

Quando nascemos nossos sentidos se afloram, por uma questão lógica penso que o primeiro seja o tato depois audição, visão, olfato e acredito que por último seja o paladar. É provado que o Ser quando nasce não tem percepção de paladar, não diferencia o doce do amargo nosso cérebro é quem faz essa associação com o passar dos anos, isso também acontece com o olfato.

Doce é bom o amargo ruim, essa associação é feita naturalmente. Acredito que seja esse o porquê adoço o leite do meu filho recém nascido?

Somos seres sensoriais, trazemos para nossa vivência somente o que é percebido pelos sentidos. Tato, audição, visão, olfato e paladar. Nos relacionados com a realidade a nossa volta, tendo como mediador os sentidos físicos. Esse relacionamento mediado pelos sentidos gera em nos sensações que descrevemos como boas ou ruins.

Só podemos afirmar como real aquilo que nossos sentidos percebem. O ar, com exceção de São Paulo, é um bom exemplo. O ar é invisível e inodoro sei que ele existe pelo fato de poder senti-lo.

Difícil é perceber Deus da forma que somos habituados a perceber todas as demais coisas na vida. Deus é intangível, não possui densidade não pesa é incolor e inodoro, não é quente nem frio, duro ou fofinho.

Eu não posso dizer fisicamente se Deus é real, se está ou não está ou se é bom ou não. Várias foram às vezes que ouvi que Deus estava em determinado lugar, mas não consegui vê-lo, ouvi-lo ou sequer senti-lo.

Nosso crivo para saber se Deus está ou não está em determinado lugar são as sensações obtidas ou não neste ambiente. Se eu sinto Deus está, se não sinto nada não está.

Quando sei que Deus é bom? Deus é bom quando o resultado da minha confiança em Deus me beneficia imediatamente. Por exemplo; dei o dizimo e Deus me deu em dobro, devido a uma circunstância perdi o emprego mais rapidamente encontrei outro melhor etc.

Nossa relação com o divino está impregnada com esses conceitos que aplicamos com sucesso no cotidiano quando vamos comprar e comer etc. Estou com sentido fome, vou a um restaurante sacio minha fome; se me senti bem neste lugar volto ao mesmo restaurante outras vezes se não, não volto.

Não devemos basear nossa caminhada com Deus nas circunstâncias e sensações que tivemos ou teremos. Nosso contato com Deus é mediado pela fé. O que é a fé senão o grande conflito de crer que algo é ou será apesar das sensações e circunstâncias dizerem o contrário.

Infelizmente nos dias atuais Deus precisa se mostrar evidente em nossas circunstâncias e sensações para que se creia nele. Temo que não sejamos capazes de andarmos com Deus aquém das evidências e as sensações adversas do dia-dia crendo em sua bondade.

Até no momento de nossa celebração buscamos uma boa sensação, como um arrepio gostoso para que tenhamos a confirmação de que Deus é bom e que está no meio de nos.

Quero a consciência do salmista, mesmo passando pelo vale da sombra da Morte ter a certeza da bondade e da misericórdia de Deus sobre minha vida todos os dias.

Ouvi certa vez o Pastor Ricardo Gondim dizer assim: "Eu não sinto Deus, eu sei Deus!"

Que Deus me ajude a ter essa consciência. Quero andar com Deus acreditando no seu amor, bondade e misericórdia ainda que as evidências e circunstâncias a minha volta apontem ao sentido contrário.

Posso ouvir um amém?

Por Leonardo Pessoa